Comandante do Exército suspende nomeação de ex-assessor de Bolsonaro pivô de crise
24/01/2023 21:49 em NOTÍCIA

Tenente-coronel Mauro Cid assumiria batalhão em Goiânia e, agora, espera nova designação.

BRASÍLIA

O comandante do Exército, Tomás Paiva, decidiu suspender a nomeação do tenente-coronel Mauro Cid para o comando do 1º Batalhão de Ações de Comando, em Goiânia.

A decisão foi tomada nesta terça-feira (24) após conversa entre Tomás e Cid. Segundo relatos feitos à Folha, o ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sugeriu o afastamento diante da crise militar após a queda do ex-comandante do Exército Júlio César de Arruda.

O Alto Comando do Exército foi comunicado da decisão durante reunião nesta terça. Com a mudança, Cid deve assumir um cargo burocrático no QG do Exército, em Brasília, e poderá concorrer novamente a um cargo de comando.

Tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, que foi ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) - Alan dos Santos - 8.mar.20/Divulgação Presidência

Em nota, o Exército disse que Cid fez uma solicitação de "adiamento do comando", que foi deferido.

 

A ideia principal, segundo generais ouvidos pela Folha, é que o tenente-coronel tente concorrer novamente ao cargo no batalhão em Goiânia no biênio 2025-2026 ou antecipe sua candidatura a outra função em 2024.

A situação de Mauro Cid começou a ser discutida na noite de sexta-feira (20) entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.

 

Causou desconforto no governo o fato de Cid ser investigado pela Polícia Federal por transações suspeitas realizadas pelo tenente-coronel no período em que era ajudante de ordens de Bolsonaro, como revelou a Folha.

Investigadores identificaram no telefone do militar mensagens que levantaram suspeitas. Conversas por escrito, fotos e áudios trocados por ele e outros funcionários da Presidência sugerem a existência de depósitos fracionados e saques em dinheiro.

A movimentação se destinava a pagar contas pessoais da família presidencial e também de pessoas próximas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Com as suspeitas, Lula pediu a Múcio que tomasse providências para reverter a nomeação do militar. Apesar da ordem, o ex-comandante do Exército Júlio César de Arruda resistiu à mudança.

Diante da ordem não cumprida, o ministro da Defesa decidiu demitir Arruda e colocar o general Tomás Paiva no comando do Exército.

"Estou torcendo para que o general Tomás vá dizer ao presidente que vai fazer aquilo que o presidente deseja fazer. A gente precisa que agora, para que nasça esse clima de confiança, de que o outro saiba o que vai se fazer, é muito importante que essa iniciativa seja do Exército", disse o ministro à GloboNews antes da reunião.

"O general Tomás pediu para que ele tomasse à frente para decidir o que é que vai fazer [com o caso Cid]. Mas que tomará as providências e combinar comigo e com o presidente", completou.

A decisão foi bem recebida pelo Alto Comando do Exército, colegiado de 16 generais quatro estrelas, durante a reunião desta terça. Em patentes mais baixas, no entanto, a avaliação corrente é que a queda de Cid configura uma interferência política de Lula na Força e tem poder para aumentar a insatisfação contra o presidente e generais.

O encontro do Alto Comando foi marcado pelo novo comandante da Força, general Tomás Paiva, ainda no domingo (22) para discutir a situação de Cid e dar novas diretrizes para os comandados.

De acordo com quatro generais ouvidos pela Folha, houve uma avaliação de que o Exército falhou na comunicação durante o período eleitoral. O generalato entende que perdeu o controle das informações com diversos ataques e notícias falsas sobre a Força que circularam nos últimos meses de 2022.

Por isso, Tomás definiu que o Exército terá uma postura mais proativa na comunicação interna, para evitar que notícias falsas sobre o comando sejam acolhidas pela tropa e contaminem a relação de hierarquia militar.

Eles citam como exemplo os ataques contra cinco generais do Alto Comando, chamados por bolsonaristas de "melancias", em falsa afirmação de que eles seriam comunistas.

Antes da reunião formal do generalato, que começou no início da tarde, os militares conversaram no cafezinho sobre o discurso de Tomás à tropa do Comando Militar do Sudeste, divulgado na última sexta, em defesa do respeito às urnas e à hierarquia e disciplina militar.

A publicação do vídeo pelos canais oficiais da Força gerou incômodo em alguns militares, que viram na gravação uma possível sinalização de Tomás ao governo de Lula que, diante do mal-estar com Arruda, ele poderia assumir a função máxima do Exército.

A interlocutores Tomás classificou o caso como uma infeliz coincidência. Ele ainda explicou que o discurso foi feito após o próprio Arruda, em reunião do Alto Comando na quarta-feira (18), ter pedido para que os generais reforçassem às tropas os princípios de respeito à hierarquia e disciplina aos comandados.

Durante a reunião do Alto Comando, os generais ainda trataram sobre o comandante militar do Planalto, Gustavo Henrique Dutra, alvo de processo de fritura dentro do governo.

A avaliação do generalato é que Dutra não cometeu erros e cumpriu as ordens dada pelo comando do Exército durante a crise dos acampamentos em frente ao quartel-general e não deve ser punido.

Há um acerto interno, no entanto, desde a gestão anterior, do general Marco Antônio Freire Gomes, para que Gustavo Dutra deixe a função após a próxima reunião do Alto Comando do Exército, em fevereiro. A justificativa é que o CMP (Comando Militar do Planalto) é o único chefiado por um general três estrelas e sua rotatividade é mais rápida, por ser um cargo muito disputado.

O caso do tenente-coronel Jorge Paulo Fernandes da Hora, comandante do BGP (Batalhão da Guarda Presidencial), também foi solucionado, como mostrou a Folha. Ele assumirá nova função no Estado-Maior do CMP, e o comando do batalhão passará a ser feito pelo tenente-coronel Nélio Moura Bertolino.

 

 
 

 

 
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