Um ex-colaborador afirmou em documento registrado em cartório que o advogado Eli Cohen, um dos primeiros denunciantes do esquema de desvios no INSS, pediu R$ 5 milhões ao marqueteiro do PL para atuar a favor do partido e direcionar investigações sobre o caso para entidades próximas ao governo Lula (PT).
O ex-policial Rogério Gilio Gomes registrou as acusações com firma reconhecida em 24 de outubro de 2025, depois de Cohen ter testemunhado na CPI. Em dezembro, porém, ele apresentou um novo documento dizendo que as declarações escritas anteriormente não eram verdadeiras.
Cohen foi o primeiro a prestar depoimento na CPI do INSS, em 1º de setembro de 2025. O advogado afirma ter descoberto em 2023 a fraude dos descontos irregulares, desbaratada pela CGU (Controladoria-Geral da União) e pela Polícia Federal em abril do ano passado.
No primeiro documento, ao qual a Folha teve acesso, Gomes disse que Cohen pediu R$ 5 milhões a Duda Lima, marqueteiro do PL, afirmando que iria "derrubar a república do PT". O ex-policial disse não saber se o dinheiro havia sido efetivamente pago por Duda ou pelo PL.
O recuo veio depois de a reportagem informar a Gomes, Cohen e os demais citados que havia tido acesso às acusações e que elas seriam publicadas. Na ocasião, Duda Lima, o marqueteiro que presta serviços ao PL e a quem Cohen teria pedido dinheiro, segundo a manifestação do ex-policial, disse que exigiria "retratação, indenização e punição criminal" pelas ilações feitas.
Cohen é um advogado de São Paulo que faz investigações privadas. Ele confirmou à reportagem que Gomes prestou serviço em atividades do tipo para seu escritório, ainda que sem vínculo empregatício.
Procurado, Cohen confirmou ter trabalhado com Gomes, mas negou todas as acusações. Duda afirmou que a acusação é falsa e que vai tomar as medidas judiciais cabíveis.
Gomes negou ter sofrido algum tipo de pressão para se retratar. Também afirmou que registrou o primeiro depoimento porque, na época, estava em atrito com o advogado para quem havia trabalhado.
A defesa de Gomes disse à reportagem, em 17 de dezembro, que a declaração havia sido produzida para instruir eventual inquérito policial e para possíveis defesas no Judiciário. Doze dias depois, o ex-policial registrou uma nova manifestação em cartório, dessa vez dizendo que o conteúdo do primeiro texto "não corresponde à verdade".
O primeiro documento com a acusação feita pelo ex-policial contra Cohen foi escrito em uma forma declaratória parecida com boletins de ocorrência.
Nele, Gomes afirma: "Que Eli Cohen pediu R$ 5 milhões de reais para Duda Lima para que atuasse a favor do PL e direcionasse as investigações para os Sindicatos de Lula, como diz Eli. Que Eli chegou ao ponto de dizer que iria ‘derrubar’ a república do PT. Que não sabe se Eli recebeu o dinheiro do PL ou de Duda Lima".
O ex-colaborador de Cohen também afirma que Duda deu um treinamento de mídia ao advogado antes do depoimento dele à CPI —como mostrou a Folha em outubro a partir de áudios em que o advogado admitia ter recebido dicas.
Gomes afirmou que prestava "serviços de inteligência" para Cohen na defesa do empresário Maurício Camisotti, investigado no escândalo do INSS.
Gomes disse, no primeiro documento, temer pela vida dele e de familiares, acusou o advogado de extorquir diferentes pessoas, incluindo Camisotti, e declarou estar preocupado em ser envolvido nos "rolos" do antigo empregador.
O ex-policial também afirmou que Cohen relatou ter sido procurado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), entre outros políticos do PL não especificados, após reportagens sobre os descontos irregulares em aposentadorias serem publicadas.
Flávio, de acordo com a declaração, teria dito ao advogado que enviaria um emissário. Depois, o senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e secretário-geral do PL, teria feito uma visita ao escritório.
Tanto Cohen como Flávio afirmam que nunca se encontraram. Marinho diz que se encontrou com Cohen apenas para ter mais informações sobre as fraudes no INSS e que não houve nenhum pedido de Flávio.
Cohen negou todas as acusações contidas no primeiro documento. "Ele [Gomes] deve estar recebendo [dinheiro] para agir dessa forma, porque é de interesse das partes assassinar minha reputação", declarou o advogado, referindo-se aos investigados no esquema de descontos irregulares. Também disse que as investigações posteriores confirmaram suas afirmações sobre as fraudes.
Ele disse nunca ter sido advogado de Camisotti, nem ter tentado extorqui-lo. Afirmou ter apenas negociado um acordo em favor de seus clientes. E criticou Gomes.
"Não quero entrar em uma discussão, ainda mais com um cara desse nível, um ex-policial que foi dispensado da polícia por um comportamento duvidoso", declarou Cohen.
Gomes é ex-policial civil de São Paulo. Ele se aposentou e, depois, perdeu o cargo público por ter sido condenado a 4 anos e 3 meses de reclusão por facilitação de descaminho –quando se auxilia na sonegação de impostos de importação ou exportação.
"Eli Cohen faz acusações sem provas, como sempre. Nunca recebi nenhuma vantagem ou valor para dizer a verdade sobre ele e seu modus operandi", disse o ex-policial por meio de seu advogado ao ser questionado pela primeira vez pela Folha. Ele também declarou que não tem pendências com a Justiça e que não comentará sua vida pessoal.
O segundo documento, em que Gomes volta atrás de todas as acusações feitas anteriormente, afirma que o recuo foi feito após "consciente reavaliação". Além disso, o ex-policial admite ser o autor de gravações de conversas de Eli Cohen que, depois, foram publicadas na imprensa.
"[Sobre] Os motivos que o levaram a realizar as referidas gravações, bem como a elaboração e subscrição da declaração ora retratada, reserva-se o direito de revelar em momento oportuno, caso e quando necessário, perante quem de direito", afirma o texto.
Leia a seguir as íntegras das manifestações de Duda Lima, Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho.
Duda Lima
"Rechaço, veementemente, tais declarações. Para começar, é fake news a história de que eu estaria com alguém do PL e com o senhor Eli, em algum momento da minha vida. É mentira a história que o senhor Eli tenha pedido alguma coisa para mim —tampouco valores em dinheiro.
"Da mesma maneira que é Fake News que eu tenha ministrado media training ao senhor Eli. Apenas dei dicas óbvias, e informalmente, antes de ele participar da CPMI do INSS. Aliás, um treinamento desta natureza não se ministra com uma única pessoa! Eu teria de recrutar e contratar equipe, alugar um espaço (neutro a quem passa pelo treinamento) e eu cobraria por isso - já que este é o meu trabalho. E não menos importante, um media training não é "dica de sala de espera". Um caso desta complexidade levaria dias para ser analisado e trabalhado - o que nunca aconteceu!
"Desinformação é crime. Este ex-colaborador do senhor Eli, quem eu, aliás, não conheço, vai ter de responder na Justiça pelas falsas acusações que, segundo a Folha de S.Paulo, firmou em cartório.
"Em paralelo a esta resposta que estou compartilhando com esta equipe de reportagem e que espero que seja publicada na íntegra e levada em consideração no decorrer da elaboração da matéria, estou ingressando com processo, pedindo retração, indenização e punição criminal pelas ilações feitas.
"Como profissional da área da comunicação, causa estranheza, inclusive, um jornal, como a Folha de S.Paulo, abrir espaço para alguém que, simplesmente, chega num cartório e registra o que lhe vem à cabeça ou faz isso a serviço de alguém, lançando mão de mentira. "Abre espaço para alguém que só tem uma ata, que NÃO TEM PROVAS. Para alguém que era investigador da Polícia Civil, chegou a ser preso e, quando saiu da detenção, foi exonerado do Estado.
"Cabe a pergunta: quem se beneficiaria com essa sujeirada que ele quer vender para a Imprensa como sendo verdade?"
Flávio Bolsonaro
"Nunca me encontrei com essas pessoas, mas as digitais da esquerda, espalhadas nessa narrativa patética, mostram o desespero deles, tanto com a minha pré-candidatura quanto com as investigações sobre os roubos no INSS. Aos inventores dessa fake news: vocês não vão parar as investigações contra os ladrões do INSS e não vão parar a minha pré-candidatura. Podem se preparar, porque vamos resgatar o Brasil."
Rogério Marinho
"O senador Rogério Marinho desconhece o conteúdo da denúncia e repudia as informações divulgadas, que são falsas. Esclarece que teve um breve encontro com o advogado Eli Cohen, em julho de 2025, após a leitura do requerimento da CPMI do INSS, com o objetivo de conhecer melhor as denúncias que fundamentaram as investigações, amplamente divulgadas pelo Metrópoles — fato já comunicado oficialmente à CPMI.
"Ressalta que nunca houve qualquer pedido do Senador Flávio Bolsonaro sobre o tema e informa que buscará o acesso ao inteiro teor da denúncia para adotar medidas judiciais por calúnia, injúria e difamação."