Além de absorver a derrota nas urnas para Lula (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL) tem de lidar com dois inquéritos criminais que correm contra ele.
Flávio é investigado por suspeitas de envolvimento em crimes de lavagem de dinheiro e corrupção.
Ele foi intimado pela Polícia Federal nesta segunda-feira (26), um dia após perder a eleição, a entregar os seus passaportes comum e diplomático, e está proibido de deixar o Brasil. A ordem é do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Caso fosse eleito, Flávio teria uma imunidade temporária durante o mandato —presidentes não podem ser processados criminalmente por fatos anteriores ao mandato e que não tenham relação com o cargo. Mas, com a derrota, ele não será beneficiado com a regra.
Além disso, Flávio perderá o foro especial, ao ver terminar o seu mandato como senador, em fevereiro. É a primeira vez, desde a sua primeira eleição para deputado estadual, em 2002, que ele ficará sem cargo eletivo.
O primeiro inquérito do qual Flávio é alvo trata do pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, sob a justificativa de financiar o filme "Dark Horse", sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Assim como Vorcaro, o senador é investigado sob suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Como a Folha mostrou, os investigadores já têm elementos para concluir parte do caso e acusar Vorcaro de evasão de divisas.
A avaliação é que o mapeamento do dinheiro que foi enviado aos Estados Unidos a pedido de Flávio e de possíveis conexões com o senador depende de informações ainda em fase inicial de análise.
O candidato derrotado negou qualquer irregularidade em relação ao caso e disse que o filme só tem recursos privados. Também já disse que defende "transparência total sobre o assunto" e que "não tem nada de errado em relação ao filme".
Como mostrou o site The Intercept Brasil, Flávio negociou diretamente com Daniel Vorcaro o repasse de pelo menos US$ 24 milhões (hoje, aproximadamente R$ 122,7 milhões) para a produção do longa.
No dia 16 de novembro de 2025, às vésperas da prisão do banqueiro e da liquidação do Banco Master pelo Banco Central, Flávio enviou uma mensagem: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!".
A investigação que relaciona o caso Master a "Dark Horse" está sob relatoria de André Mendonça no Supremo, mas o presidente da corte, Edson Fachin, determinou em setembro a remessa dos procedimentos para o gabinete dele.
Caso Willer Tomaz
Outra investigação, que está sob a relatoria de Alexandre de Moraes, trata das relações de Flávio com o advogado Willer Tomaz, amigo do candidato derrotado. É apurada suspeita de lavagem de dinheiro.
Willer teve o celular apreendido na Operação Sem Desconto, que trata de fraudes relacionadas ao INSS, e a análise do conteúdo do aparelho revelou movimentações financeiras suspeitas.
Foi nesse inquérito que Moraes determinou, nesta segunda, a apreensão dos passaportes de Flávio. Também proibiu o contato do senador com Willer.
O fluxo sob investigação inclui plataformas de bets, holdings no exterior e outras empresas vinculadas –formalmente ou com sócios de fachada– ao advogado.
Também foram apontadas relações suspeitas envolvendo o advogado e políticos próximos. A Polícia Federal afirma ter encontrado "diversos elementos que evidenciam uma relação de proximidade entre Willer e Flávio Bolsonaro".
"Entre os registros localizados, constam referências a festas, encontros e reuniões envolvendo ambos, além de documentos de natureza pessoal vinculados a Flávio encontrados no iCloud de Willer", diz trecho da investigação.
No celular dele, foram encontradas fotos de Flávio, além de documentos vinculados. As famílias de ambos viajavam com passagens compradas pela Cathedral Holding, única acionista da Rede Loto, dona da casa de apostas BestBet.
Os dois se comunicavam pelo Confide, um aplicativo que permite o envio de mensagens e de outros conteúdos que desaparecem após a visualização, além de mecanismos que dificultam a captura do que é falado. Flávio era listado como um dos contatos favoritos de Willer no aplicativo.
Documentos analisados pela PF apontam ainda que Flávio tinha um acesso de "usuário master" na conta bancária de uma das holdings de Willer, a Alcazar, o que dava a ele um elevado poder de gerenciamento.
Em maio de 2025, foi solicitada a exclusão do senador da conta, "elemento que indica que o senador permanecia vinculado à conta bancária, ao menos sob a perspectiva operacional, até aquela data", de acordo com a investigação.
A PF diz que esse acesso, "analisado em conjunto com os demais vínculos identificados, sustenta a hipótese de eventual participação econômica ou societária de fato" na Alcazar Holding.
Quando a informação sobre o acesso foi revelada, Flávio disse em nota que "nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas". "Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa", afirmou.
"Essas insinuações não surgem por acaso. Aparecem agora, em pleno período eleitoral, com um propósito único: espalhar fake news", acrescentou.
Quando uma reportagem da Folha mostrou que a Cathedral pagou voos para Flávio, a campanha do senador disse que a relação dele com Willer é exclusivamente de amizade. "Associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos", afirmou.
Já a assessoria de Willer disse, em nota sobre o inquérito, que "todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de Imposto de Renda".
"Não há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas. O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado. A relação entre os dois é de amizade entre famílias, e amizade não é crime", afirmou.
"A defesa confia que a investigação, conduzida com acesso aos autos e contraditório, demonstrará a regularidade de todas as operações."