Morreu na manhã desta terça (13), aos 60 anos, o cantor Netinho, ícone da axé music que se consagrou como a voz dos hits "Milla" e "Beijo na Boca". A notícia foi divulgada pela equipe nas redes do artista.
A causa da morte foi insuficiência renal e falência múltipla de órgãos, causadas por um linfoma não Hodgkin do tipo B, tipo de câncer que ataca o sistema linfático. Netinho estava internado num hospital de Salvador e havia anunciado, no fim de setembro, que se afastaria das redes para se dedicar ao tratamento.
"Artista extraordinário, talentoso, sensível e inovador, Netinho construiu uma trajetória marcada pela alegria, pela música e por um carisma inconfundível", diz o post no Instagram do cantor. "Sua voz, sua energia e sua forma tão particular de se conectar com o público deixam um legado que permanecerá para sempre na memória e no coração de seus fãs, amigos e de todos que tiveram o privilégio de acompanhá-lo."
"Netinho partiu tranquilo. Durante os últimos meses de tratamento, costumava dizer: 'Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte'", segue o comunicado.
Ainda segundo a equipe de Netinho, o velório e a cerimônia de cremação serão restritos a familiares e amigos mais próximos, conforme desejo do cantor. "Neste momento de profunda dor e despedida, pedimos respeito à privacidade da família e dos amigos, para que possam vivenciar esse momento com a serenidade e o recolhimento necessários."
Uma das vozes de maior sucesso da axé music a partir do fim dos anos 1980, Netinho nasceu em 1966 em Santo Antônio de Jesus, na região do Recôncavo Baiano. Após perder o pai, quando tinha 9 anos, ele se mudou com a família para Salvador. Lá, aos 14 anos, começou a praticar música por conta própria.
Dois anos depois, o artista entrou na Universidade Católica de Salvador para cursar Engenharia Civil. Apesar dos estudos, começou a se apresentar em colégios e teatros, em que cantava músicas da MPB e da Bossa Nova.
Em 1986, ele iniciou sua carreira profissional ao se apresentar como folião no Bloco Beijo, no Carnaval de Salvador. Puxado por Luiz Caldas e pela Banda Acordes Verdes, o trio o aproximou do grupo e, dois anos mais tarde, após a saída de Caldas, fez dele um dos vocalistas da Banda Beijo, criada em 1988.
Em novembro daquele ano, "Beijo na Boca", maior hit do grupo, tornou-se um sucesso de Carnaval e logo estourou nas rádios do país. No ano seguinte, o grupo se tornou a primeira banda baiana a se apresentar no Domingão do Faustão, o que abriu ainda mais portas para o artista em regiões fora do circuito do axé.
Entre 1990 e 1992, Netinho viu a Banda Beijo puxar um trio elétrico na Itália, durante a Copa do Mundo, e lançar discos como "Badameiro", o primeiro dirigido por ele, e "Aconteceu Axé Music", que, segundo o site oficial do cantor, saiu em defesa da axé music após os ataques de um jornalista baiano.
Daí saíram canções como "A Vida é Festa", "Estrela Primeira" e "Barracos", que também conquistaram as rádios ao falar sobre a alegria de viver, o amor profundo e mesmo ao denunciar condições precárias nas periferias brasileiras, como é o caso da última.
Netinho decidiu investir na carreira solo pouco após o disco e, em 1993, convidado pela Polygram, lançou seu primeiro álbum solo, "Um Beijo para Você". A faixa "Menina" logo entrou para a trilha sonora da novela "Tropicaliente", da Globo.
Ainda no início da década, vieram hits como "Como?", que integrou a trilha da novela "História de Amor", outra atração da emissora nacional, e o disco "Netinho", que o cantor concluiu nos Estados Unidos —e contou com participações de músicos como Sandra de Sá, Renato Borghetti e ex-músicos da banda "Earth, Wind and Fire"— e rendeu a ele seu terceiro disco de platina.
Já em 1996, com o disco "Netinho ao Vivo!", o cantor bateu recordes de execução com a canção "Milla", considerada até hoje um dos maiores hinos do axé e música indissociável do Carnaval baiano.
Uma regravação do grupo Jheremmias Não Bate Córner, que daria origem ao Jammil e Uma Noites, ganhou versões em diversos idiomas após estourar com Netinho.
Anos depois, em 2003, após gravar outros álbuns e participar de diferentes turnês —como aquela que, na esteira do sucesso de "Milla", levou-o a Portugal pela primeira vez—, Netinho anunciou que ficaria um tempo afastado da música, com exceção de um trio elétrico que o levou de volta ao país europeu.
Nessa ocasião foi gravado o disco "Zuêra", com releituras de clássicos da MPB e produção da Universal Music. Mesmo finalizado, a pedido do cantor, que alegou razões pessoais e rompeu com a gravadora, o álbum nunca foi lançado.
Uma década depois, entre apresentações no Carnaval de Salvador e discos como "Minha Praia" e experimentos como o álbum de pop "Outra Versão", Netinho sofreu três AVCs numa semana, quando perdeu todos os movimentos do corpo, memória recente e voz.
Na época, ele ficou internado seis meses em Salvador e, em seguida, foi transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. No ano seguinte, apesar de tonturas constantes, ele voltou a se apresentar no Carnaval, dessa vez no Rio de Janeiro.
A partir de 2016, após passar por outra internação de seis meses no ano anterior, Netinho se voltou a exames médicos regulares e à reabilitação. Naquele ano, ele decidiu deixar de se apresentar no Carnaval de Salvador, mas voltou a gravar e a fazer shows pelo Brasil nos anos seguintes —um exemplo foi a canção "Somos Todos Um", que ele apresentou pela primeira vez no Domingão do Faustão.
Em 2020, Netinho fundou a associação Aliados Brasil Conservador (ABC), plataforma digital dedicada a conteúdos em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro. No mesmo ano, em entrevista ao filho do ex-presidente Eduardo Bolsonaro, o músico ainda disse que a comunidade LGBTQIA+ —da qual faz parte, já que em 2010 disse ser bissexual—, e sugeriu que se o "pessoal não vivesse de acordo com o fiofó" teriam o apoio do então presidente.
Dois anos depois, quando o então presidente concorria à reeleição, Netinho recebeu um convite e se filiou ao Partido Liberal (PL), o mesmo do filho do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência.
Na época, o músico lançou sua pré-candidatura a deputado federal pela Bahia e passou a se declarar como "soldado de Bolsonaro", sob o lema "Deus, Pátria, Família e Liberdade".
Em 2023, após reduzir os seus posicionamentos políticos e interromper seus shows por causa da pandemia, ele retomou a carreira com uma nova banda e fez o seu show de retorno, com canções experimentais. A apresentação ficaria conhecida como "Ressureição". Nos dois anos seguintes, o artista se apresentou em shows da virada de ano, na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
Em 2025, após cancelar seus shows de Carnaval e se internar num hospital em Salvador, ele recebeu o diagnóstico de linfoma não Hodgkin do tipo B e deu início a tratamentos intensivos, entre os quais ainda se dedicou a últimas apresentações, como aquela que aconteceu em janeiro de 2026, em Natal, e marcou a sua despedida dos palcos.
Ele deixa a uma filha, Bruna.