O presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, anunciou que terá como companheiro de chapa o deputado federal Alfredo Gaspar (AL), 55, relator da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mista do INSS e agora candidato a vice-presidente —frustrando a expectativa de ter uma mulher no posto.
Ex-procurador-geral de Justiça do Ministério Público em Alagoas, Gaspar era, até esta quarta-feira (5), pré-candidato ao Senado. Sua escolha, mantida em segredo, surpreendeu até mesmo aliados de Flávio.
Gaspar se filiou ao PL em março, antes estava no União Brasil. A escolha busca acenar para o Nordeste, região em que Flávio está em desvantagem em relação a Lula (PT), e enfatizar a segurança pública, área que o senador vem priorizando com um discurso linha-dura.
Com Gaspar na chapa, Flávio também quer trazer as suspeitas contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para a campanha presidencial.
Como relator da CPI, Alfredo Gaspar buscou vincular as fraudes a aposentadorias e pensões ao governo Lula, com diversas citações ao petista em seu relatório, enquanto praticamente ignorou a cúpula da gestão anterior.
O relator da CPI propôs o indiciamento do filho de Lula em seu relatório final, mas o governo venceu a votação e o parecer acabou rejeitado.
Ao anunciar Gaspar nesta quinta à imprensa, Flávio mencionou Lulinha e Marcola e disse que admirava o deputado "pela coragem, pela honestidade, pela sua história na segurança pública".
"Alguém que enfrentou e defendeu os nossos aposentados na CPI do INSS. Alguém que pediu a prisão do Lulinha porque ele tinha culpa no cartório. Alguém que representa o Nordeste de fato, que a gente vai levar prosperidade para o Nordeste", afirmou.
Desde a semana passada, os ministros André Mendonça e Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizaram a abertura de inquéritos contra Lulinha para apurar suspeitas de tráfico de influência. Também vieram à tona pagamentos da empresária Roberta Luchsinger ao ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que é amigo de Lulinha.
"Nos últimos dias, vocês noticiaram como a degradação moral atingiu em cheio o atual governo. Não que nós não soubéssemos. [...] A corrupção, o desvio, o roubo dos aposentados do INSS entrou no gabinete do Lula. O próprio Marcola do Lula está sendo acusado de receber dinheiro que provavelmente veio por desvio do INSS", disse Flávio.
Integrantes do PL afirmam ainda que, ao tirar Gaspar da disputa ao Senado, Flávio faz um gesto ao ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que pretende se eleger senador pelo estado e agora tem um concorrente a menos.
A chapa de homens do PL difere do plano inicial de Flávio de ter como vice uma mulher de um partido aliado e evidencia o isolamento do senador, que não conseguiu viabilizar outros nomes considerados prioritários. Sem uma coligação, o bolsonarista terá 20% menos tempo de TV do que Lula, que conta com outras seis legendas.
A formação de uma aliança esbarrou na recusa de partidos do centrão, como PP, União Brasil e Republicanos, a coligarem com o PL —o prazo das convenções partidárias para a definição de alianças termina nesta quarta-feira.
Ex-promotor de Justiça, Gaspar foi secretário de de Defesa Social e depois de Segurança Pública nas gestões de Renan Filho (MDB) no governo de Alagoas, além de procurador-geral do Ministério Público estadual.
Renunciou à carreira de promotor de Justiça para entrar na política numa estratégia da família Calheiros para ganhar força na capital. Ele concorreu à Prefeitura de Maceió em 2020 pelo MDB e foi derrotado no segundo turno por JHC.
Ao se candidatar a deputado federal, no entanto, mudou de lado e deixou os Calheiros para se aproximar do bolsonarismo. Foi eleito o segundo deputado federal mais votado de Alagoas em 2022.
Na terça (4), Flávio admitiu que a busca por uma vice havia se tornado "uma novela" e que a escolha poderia se estender até o dia 15, último dia para registro das candidaturas na Justiça Eleitoral. À noite, porém, o PL anunciou que a decisão estava tomada e convidou a imprensa para o anúncio desta manhã.
A preferência de Flávio era por Daniella Marques (Republicanos), presidente da Caixa Econômica Federal na gestão Bolsonaro. O partido de Daniella, no entanto, decidiu na terça, em convenção nacional, que não apoiará Flávio e se manterá neutro na disputa entre ele e Lula.
Na semana passada, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, buscou emplacar como vice a senadora Tereza Cristina (PP-MS), sua preferida para o posto. Tereza, que resistia à ideia, chegou a ser convencida por aliados de Flávio e disse a ele que topava a empreitada, mas o PP vetou a aliança.
Tanto no caso do PP como do Republicanos, uma votação dos diretórios estaduais definiu que a maioria preferia a neutralidade. Ainda assim, Tereza, Daniella e outras cotadas de última hora, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), acompanharam Flávio no anúncio desta quarta.
Flávio também agradeceu mulheres do PL que foram consideradas para o posto, como Michelle Bolsonaro (PL) e a ex-deputada Priscila Costa (PL-CE).
Integrantes da equipe de Flávio e do PL tinham como objetivo encontrar um vice conhecido nacionalmente, que agregasse votos e que tivesse representatividade em um segmento específico, como evangélicos, Nordeste ou agro. Pesquisas internas, no entanto, revelaram a dificuldade de encontrar um vice ideal.
O próprio Marinho, por exemplo, defendia a escolha de uma mulher nordestina.
Mais do que tudo, Flávio vinha indicando que queria uma vice mulher, na tentativa de reduzir sua rejeição no público feminino. Outra estratégia do senador para conquistar eleitoras foi trazer sua esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro, para sua campanha.
A necessidade de acenar para as mulheres se agravou após a ex-primeira-dama ter dito publicamente que Flávio a maltratou. Um mês depois da crise, que eclodiu no fim de junho, o senador e sua madrasta deram sinais de reconciliação —ela aceitou um pedido de desculpas público do enteado e prometeu ajudá-lo na campanha.
Como mostrou a Folha, políticos do centrão afirmam que a dificuldade de Flávio em formar coligações e uma chapa diversa se deve à falta de diálogo e habilidade de articulação por parte do senador. Já integrantes do PL dizem que a influência e barganha do governo Lula afastaram os partidos do centrão.