Após o dia intenso, a tripulação, também composta pelos especialistas de missão Christina Koch e Jeremy Hansen, terá um período de descanso, seguido por testes extensos do sistema de suporte à vida da cápsula —é a primeira vez que ela voa com tripulação a bordo, após o voo não tripulado de 2022 na Artemis 1. Naquela ocasião, a cápsula nem tinha um sistema completo de controle ambiental. Agora, os astronautas testarão pela primeira vez no espaço essas funcionalidades. Em testes de solo, em câmaras a vácuo, tudo funcionou bem, mas é impossível realizar simulações perfeitas do ambiente espacial na Terra.
Um dos testes mais peculiares que os astronautas terão de fazer tem a ver com o dispositivo para exercícios físicos instalado a bordo. É uma cápsula pequena (o espaço interno equivale aproximadamente a uma tenda para seis pessoas) e a realização dos exercícios é essencial para a saúde dos astronautas, submetidos ao ambiente de microgravidade. Mas o quanto o uso do sistema desenvolvido para a cápsula, com todo o movimento envolvido, impactará a estabilidade do veículo? É algo que os tripulantes terão de verificar.
Com essas checagens concluídas, o início da jornada para o voo circunlunar só começa de fato na quinta-feira (2), por volta das 20h, quando será feita a manobra conhecida como injeção translunar —a ativação do motor da Orion no último empurrão para que a nave escape da gravidade terrestre e inicie a jornada ao redor da Lua.
A expectativa é que a cápsula realize seu sobrevoo lunar e os astronautas se tornem os humanos a viajarem mais longe da Terra no dia 6, quando poderão ver partes jamais vistas do hemisfério afastado lunar (exceto em fotografias colhidas por sondas automatizadas). Eles estarão a mais de 400 mil km da Terra. O recorde atual de distância foi estabelecido pela missão Apollo 13 (400.171 km).
MISSÃO HISTÓRICA
Ninguém realizava uma injeção translunar desde dezembro de 1972, quando a Apollo 17, última missão daquele programa, partiu para a Lua. Desde então, mais de 53 anos, não houve outros voos tripulados além da órbita terrestre.
A tripulação inclui o primeiro negro (Glover), a primeira mulher (Koch) e o primeiro não americano (o canadense Hansen) a fazerem essa viagem. Mas eles não devem ser os últimos. A Nasa planeja aumentar a cadência de missões de espaço profundo, fazendo ao menos um lançamento do programa Artemis por ano. O primeiro pouso tripulado americano está programado para a Artemis 4, em 2028, mas não há convicção de que o cronograma possa ser cumprido. Basta lembrar que a atual missão originalmente estava prevista para 2022, depois 2024, depois 2025, antes de finalmente acontecer.
As missões de pouso serão bem mais complexas e ainda dependem de os fornecedores dos módulos de pouso (os veículos Blue Moon e Starship, das empresas Blue Origin e SpaceX) demonstrarem capacidade de reabastecimento em órbita e de pouso suave na superfície da Lua, além de uma decolagem para a viagem de retorno.
Do outro lado do mundo, a China planeja sua primeira missão tripulada à superfície lunar para antes de 2030. A arquitetura chinesa é bem mais conservadora que a americana, basicamente uma réplica do que foi feito no programa Apollo, o que dá mais confiança de que possa ser executada no prazo determinado pelo programa chinês. Há uma corrida declarada, ao menos do lado americano, para ver quem chega primeiro à superfície da Lua com astronautas neste século.