Duas medidas não relacionadas estão provocando uma crise nas comunicações russas na linha de frente da Guerra da Ucrânia nesta semana, expondo a fragilidade de um setor vital para conduzir operações de combate.
Primeiro foi o Starlink, a internet por satélite de Elon Musk. Na semana passada, após queixas do governo da Ucrânia de que os russos estavam equipando drones com antenas do sistema para atacar alvos com mais precisão, o bilionário decidiu intervir.
Ele mandou cortar o acesso a satélites sobre a Ucrânia de qualquer terminal que não seja registrado pelo governo de Kiev. A SpaceX, que controla o Starlink, não opera na Rússia, mas seus equipamentos chegam lá e na linha de frente contrabandeados de outros países, como a Armênia.
"O que está acontecendo aqui é um caos, unidades perderam comunicação uma com as outras, e os provedores russos não são tão velozes e confiáveis", diz Pavel, um soldado separatista pró-Rússia de Donetsk, capital da província oriental homônima, que pede reserva de seu sobrenome.
Ainda não há uma avaliação do impacto da medida, mas monitores militares notaram uma pausa na pressão da linha de frente ao redor da contestada região de Pokrovsk (Donetsk) desde o fim de semana, quee pode estar relacionada à reorganização das linhas de comunicação.
Musk celebrou nesta semana o que considerou sucesso da medida. Ele já foi criticado no passado pela Ucrânia, cujas Forças Armadas dependem do Starlink para sobreviver no campo, por ter cortado acesso a satélites sobre a Crimeia anexada, alegando que ataques ali poderiam escalar o conflito.
Depois, voltou atrás, mas evidenciando a perigosa dependência estratégica de militares de um provedor privado estrangeiro que, a qualquer momento, pode puxar o proverbial plugue da tomada. Mas não só eles.
O próprio governo russo, que cerceia a liberdade na internet há anos, começou a restringir na terça (10) a operação do Telegram, um dos mais populares apps de mensagens no espaço ex-soviético.
A alegação do governo é de que o Telegram não colabora na coerção a abusos e golpes online. Nesta quinta (12), foi a vez do Whatsapp. Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, a controladora do app, a Meta, também não trabalha com as autoridades.
Segundo ele, a opção está dada: o MAX, um aplicativo lançado em março de 2025 pela gigante russa VK, dona da popular rede social VKontakte, o Facebook russo. A empresa é controlada por uma subsidiária da estatal de gás Gazprom.
"A Rússia está restringindo o acesso ao Telegram para forçar seus cidadãos a usar um app controlado pelo Estado e construído para vigilância e censura política", reagiu no X Pavel Durov, o russo exilado dono do Telegram.
O WhatsApp, que desde agosto teve a funcionalidade de ligações por voz e vídeo vetada sob a alegação de evitar golpes, foi na mesma linha nesta quarta. "Tentar isolar mais de 100 milhões de usuários de comunicação segura e privada é um passo atrás que apenas leva a menos segurança para o povo da Rússia", disse no X.
Peskov, claro, nega que o MAX seja usado para espionar os cidadãos. O app emula o chinês WeChat e funciona como central de serviços, comunicação e pagamentos. Em dezembro, tinha 70 milhões de usuários, atrás dos 94,5 milhões do WhatsApp e 93,6 milhões do Telegram.
Para a guerra, o problema é que militares usam de foma universal esses apps com criptografia, e não sistemas de comunicações próprios.
Houve uma avalanche de críticas entre os influentes blogueiros militares do país, que repostaram vídeos de soldados com o rosto coberto protestando contra as medidas. Até mesmo deputados se queixaram em discursos no Parlamento, uma raridade no país de Vladimir Putin.
"O Telegram é quase o único meio de comunicação entre as unidades ativas. Ele organiza o trabalho de grupos de tiro móveis. Por que diabos ainda não há um sistema unificado de controle?", escreveu o canal Dva Maiora ("dois majores").
"Não queremos usar o MAX porque, por surreal que pareça, não queremos ser punidos se avisarmos um colega de alguma ameaça", disse o blogueiro Silovik, confirmando o temor de vigilância.
O drible nas restrições é dado com o emprego de VPN, tecnologia que disfarça o endereço de seu celular ou computador na rede como se estivesse em outro país, fugindo de controles locais. "Mas o VPN é instável aqui na linha de frente", afirmou nesta quinta Pavel, usando um aplicativo do sistema, mas da segurança relativa de sua casa.